Please Destroy Me, um texto de Claudia Ganquin (artista arquivista lab LF 2024)
Please Destroy Me, a text by Claudia Ganquin (archivist artist, Linha de Fuga LAB 2024)
27 Ago 2026
27 Aug 2026
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© Juan Gasparini

Há alguns meses, retomei na Argentina, com a minha amiga e artista Manuela Sol Aquino, as experiências e procedimentos que tinha desenvolvido no laboratório Linha de Fuga, em torno do meu papel de arquivista em 2024.

De repente, encontrei-me novamente, desta vez acompanhada pela Manuela, a aprofundar a ideia dos retratos e das identidades, um processo que tinha começado nessa altura; e percebi que a passagem pelo LAB abriu para mim todo um campo de investigação profundamente atravessado pelo afeto, pela intuição e pela certeza de que surge uma espécie de dispositivo oracular quando operamos sobre as nossas imagens.

Depois de um processo de muita conversa, experimentação e pensamento, conseguimos dar forma ao projeto PLEASE DESTROY ME, uma repartição antigovernamental onde procuramos provocar a deterioração deliberada da identidade institucionalizada, tentando desvirtuar essa imagem que nos cataloga como um número.

Embora, no LAB, as operações sobre os retratos de quem participava procurassem sobretudo mobilizar ou questionar aquilo que em nós é arquivável e até que ponto somos arquiváveis e quanto daquilo que é arquivado realmente nos contém, o que une estes processos separados no tempo, para além de alguns procedimentos semelhantes, é o facto de assumirmos que as nossas imagens têm um percurso próprio que nos é alheio.

Nesta repartição performativa e analógica que criámos com a Manuela, dez pessoas de cada vez, mediante marcação prévia e aceitando entrar no jogo de uma burocracia estranha, assistem e participam em diversas operações sobre a imagem do seu documento de identidade, como forma de se desidentificarem da sua identidade institucionalizada e de gerirem o aparecimento de uma multiplicidade de imagens de si próprias, através de um procedimento lúdico e complexo.

Creio que, apesar das suas diferenças, em ambos os processos se trata de produzir um certo distanciamento que nos permita olhar para a nossa própria imagem como algo alheio, que segue um percurso sensível que nos liberta dela, ou que nos permite pensar que não somos apenas aquilo, mas que existem múltiplas possibilidades de nós próprios.

Sermos desenhados, numerados, conglomerados, pisar e perfurar o próprio documento de identidade, participar num ritual coletivo, perfurar os olhos para que deles saiam lágrimas futuras, oferecer a própria imagem para fazer passar de um telemóvel para outro a fotografia da fotografia da fotografia, compor entre todos uma nova imagem alheia, transferir a fotografia para uma pedra, abandonar a pedra num lugar significativo, carregar a fotografia no Google Maps como forma de a lançar novamente no universo de zeros e uns.

Só agora me apercebo de que a imagem retratada sobre a pedra já não é a nossa imagem na pedra, mas a própria imagem dessa pedra. A pedra e a imagem que transporta consigo já não são coisas separadas.

Então penso que, na verdade, não é possível conservar nem perseguir as nossas imagens como se fossem nossas, ou como se de nós se tratasse.

Claudia Ganquin, coreógrafa, Argentina

https://bicefalos.ar/bice/

A few months ago, in Argentina, I returned with my friend and fellow artist Manuela Sol Aquino to the experiments and procedures I had developed at Linha de Fuga’s Laboratory around my role as an archivist in 2024.

Suddenly, this time accompanied by Manuela, I found myself once again delving into the idea of portraits and identities, a process that had begun back then; and I realised that my time at the LAB had opened up an entire field of research for me, deeply shaped by affection, intuition and the certainty that something like an oracular device emerges when we operate on our own images.

After a process involving a great deal of conversation, experimentation and thought, we managed to give shape to the project PLEASE DESTROY ME, an anti-government office in which we aim to deliberately erode institutionalised identity, seeking to distort the image that catalogues us as a number.

Although at the LAB the operations carried out on the portraits of those of us taking part were more concerned with activating or questioning what about us can be archived and how archivable we are, and how much of what is archived actually contains us, what brings these processes, separated in time, together, beyond certain similar procedures, is the assumption that our images have trajectories of their own, beyond us.

In this performative, analogue office that Manuela and I have created, ten people at a time, having booked an appointment in advance and agreeing to play along with a strange bureaucracy, witness and take part in a range of operations on the image contained in their national identity document, as a way of disidentifying themselves from their institutionalised identity and enabling a multiplicity of images of themselves to emerge through a playful and complex procedure.

I think that, despite their differences, both processes are about creating a certain distance that allows us to see our own image as something other, something that follows a sensitive path of its own, freeing us from it, or allowing us to think that we are not only that, but that multiple possibilities of ourselves exist.

To be drawn, numbered, clustered together; to step on and pierce our own identity document; to take part in a collective ritual; to pierce the eyes so that future tears may flow from them; to offer up our own image, passing from one phone to another the photograph of the photograph of the photograph; to collectively compose a new and unfamiliar image; to transfer the photograph onto a stone; to leave the stone in a meaningful place; to upload the photograph to Google Maps as a way of casting it back into the universe of zeros and ones.

Only now do I realise that the image portrayed on the stone is no longer our image on the stone, but the image of the stone itself. The stone and the image it carries are no longer separate things.

And so I think that it really is impossible to preserve or pursue our images as though they belonged to us, or as though they were us.

Claudia Ganquin, choreographer, Argentina

https://bicefalos.ar/bice/

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