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©Michiel Devijver
Na terceira edição de Linha de Fuga, voltamos a gerar uma dinâmica de espaço de encontro entre artistas de distintas origens. Seguindo a mesma dinâmica de pensar as artes do corpo como produtoras de conhecimento, depois de uma edição dedicada a pensar o significado da Democracia e as artes como o terreno onde se podem gerar encontros entre cidadãos.

Num momento de instabilidades extremas como a que vivemos, torna-se lógico fazer evoluir esta próxima edição para uma discussão sobre as éticas do cuidado.
Após um ano em que a palavra mais ouvida foi Covid-19 e pandemia, numa altura em que diversas guerras preocupam o mundo na eminência de um colapso ecológico irreversível, além da estafa dos tempos rápidos exigidos pela necessidade de produzirmos para sermos visíveis, ao querer colocar em discussão este tema, pretendemos chamar a atenção para as situações de vulnerabilidade que existem no mundo e nas desigualdades que podem provocar no que concerne às relações intersociais.

Pensar que, tal como diz o filósofo João Maria André “A vulnerabilidade afeta o ser humano como um todo, tanto na sua dimensão física e corpórea como na sua dimensão psíquica e espiritual. Na dor e nas paixões não há o corpo de um lado e o espírito do outro, mas corpo e espírito são um só e é por isso que se ama também com o corpo e se sofre também com o pensamento, indiciando a existência em nós de uma razão pática, mais do que uma razão pura, em que pensamento e afetividade se intersecionam no corpo que somos e com o qual nos dizemos nas vicissitudes da nossa identidade”.
© Renato Mangolin
Queremos, assim, discutir o cuidado de uma forma plural e holística, colocando a atenção nas interdependências existentes entre todos e promovendo, assim, a curiosidade pelas práticas que nos permitam nos relacionar com lógicas de existências distintas.

A programação desta edição é pensada com esse mesmo senso de cuidado, colocando em evidência a necessidade de reconhecer, cultivar e sustentar um espaço de convivência onde diferentes mundos (vegetal, animal, onírico, espiritual, humano, etc) se possam manifestar nos seus próprios termos, sem se prejudicarem.

A seleção dos artistas e suas obras foi pensada de acordo com a sua capacidade de fornecer discursos críticos e de trazer distintas perspetivas sobre o tema à cidade.
© Torben Huss
© Marta Blanco
Toda esta dinâmica se desenvolve entre 16 de Setembro e 9 de Outubro de 2022 com uma programação de duas peças por semana em distintos locais e espaços da cidade, para além de várias atividades críticas em sua relação.

Começamos o festival com aquilo que parece ser atualmente uma condição comum entre todos, o cansaço.

Vicente Arlandis propõe uma sátira sobre este tema, enquanto nos obriga a ver como se deleita com uma massagem a que só ele tem direito; Cristian Duarte traz-nos a necessidade do Outro, mas também a nossa falta de confiança no Outro, baseando-se no mito de Orfeu; Dinis Machado acorda-nos para outros corpos, outras sexualidades, outras possibilidades de pensarmos o (não) binarismo, numa alusão clara ao escândalo da sexualidade de Nijinski em palco; Chrysa Parkinson brinda-nos com a sua escuta colocando em evidência a linguagem como meio de atravessar confrontações; Marta Blanco retribui-nos com amor e posturas políticas a sua visão da primeira edição de Linha de Fuga; Carlota Lagido propõe um jantar feminista em Alfafar, provocando a audiência ao contato com distintas mulheres, presentes e ausentes na história e na vida; Gustavo Ciríaco e Andrea Sonnberger transportam-nos com cuidado por um passeio coletivo pela cidade, permitindo-nos ver e ouvir o que nunca tivemos cuidado de olhar; e terminamos o festival com duas odes à dança, David Marques que nos convida a entrar na sua intimidade e no prazer de dançar e Frédéric Gies que nos convida a acompanhá-lo numa jornada contagiante onde a festa, o ecstasy e a memória nos desafiam a nos perder, ou se encontrar, no coletivo.

Possíveis formas de pensar o cuidado, com cuidado. 

Ao lado desta programação, várias outras atividades estarão disponíveis: conversas, seminários, apresentações de processos, workshops, participação em processos e investigações artísticas. Tudo para ser olhado com a atenção e o cuidado que todos precisamos.
Catarina Saraiva e Thiago Granato
Curadoria edição 2022